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Escrever para ser publicado é diferente de escrever para
si próprio.
Quando escrevemos para nós mesmos, como um diário
ou reflexões, estamos usando a escrita para pensar. É
um ótimo método para esclarecer questões, visto
que no papel mesmo as situações mais complicadas vão
se organizando. Não é à toa que tantos terapeutas
sugerem a seus clientes escreverem um diário. É muito
bom para a cabeça produzir textos sobre o que é importante
para nós.
Quando escrevemos para ser publicados, estamos escrevendo para outras
pessoas. O foco passa a ser a necessidade dos leitores e não
mais as nossas como escritores.
Quando escrevemos para nós, está certíssimo
preenchermos nove páginas pesando os prós e os contras
de determinada pessoa por quem estamos interessados. Quando escrevemos
para os outros, precisamos cortar tudo que não seja interessantíssimo
e contribua para o andamento da história, o que provavelmente
transformaria todas aquelas dúvidas em um único e
curto parágrafo.
É um difícil exercício escrever para ser publicado,
porque em geral a gente gosta do que escreve, acha tudo importante
e pensa que todo mundo vai gostar também.
Só que isso não é verdade. As pessoas selecionam
os livros de acordo com o que estão passando, as dificuldades
que estão vivendo. Algo fascinante para nós pode ser
o máximo do tédio para um leitor.
Por outro lado, não podemos ter medo. Escrever para os outros
é um ato de coragem, de se expor. Quanto mais honestidade
a gente coloca no texto, quanto mais ridículo e perdido a
gente se apresenta, tanto mais fácil os leitores gostarem
da gente.
Quando escrevemos, temos também muita ansiedade a respeito
do resultado. Queremos ficar famosos, ser elogiados, de repente
até ganhar um dinheirão. É bom saber que a
maioria dos escritores não fica nem rica nem famosa, e que
nenhum escritor conhecido fez sucesso com o primeiro livro. Nenhum
mesmo!
Portanto, vá com calma. Faça o que pode, não
pense nos resultados, e vá escrevendo um pouco sempre. Querer
escrever o primeiro livro e imaginar que ele vai ser o próximo
Harry Potter é pedir para ficar decepcionado. É bem
melhor publicar um artigo numa revista aqui, um poema numa coletânea
ali e não ter expectativas loucas.
Mas como podemos saber o que dá para ser publicado?
Existem alguns requisitos mínimos para produzir um texto
publicável, isto é, que venha a interessar um editor.
Se cumprirmos todos, isso não é garantia de que nosso
texto será aceito por um editor, mas já é meio
caminho andado!
Abaixo estão algumas sugestões para fazer com que
os seus escritos fiquem bons:
• Prestar atenção ao que está
acontecendo em volta.
A escrita que mais interessa é aquela que fala das preocupações,
angústias e felicidades das outras pessoas – e não
só as suas – hoje. Os editores desejam obras conectadas
com o público, que falem do que importa.
•
Falar do que conhece.
Se você é um adolescente que mora numa cidade do interior
e nunca viajou para fora do país, não pode escrever
uma aventura que se passe em Paris. Vai parecer falsa. Nem dar conselhos
para os mais velhos. Você tem de falar do que entende, do
que já viveu em primeira mão, do que conhece muito
bem.
•
Ler muito.
Para escrever bem, você precisa ler todo tipo de literatura,
inclusive novos autores brasileiros, romances esquisitos de autores
de quem você nunca ouviu falar, arriscar poetas novos. Se
você não souber o que os outros estão pensando
e publicando, será difícil escrever algo criativo
e diferente.
•
Escrever muito e sem erros.
Para escrever bem, é preciso escrever todo tipo de coisa,
inclusive cartas e emails, com clareza e sem erros ortográficos.
Não adianta pensar que o corretor ortográfico ou o
revisor vai corrigir seus erros, você precisa saber o que
é certo, qual palavra é a melhor numa frase.
•
Passar por um crivo de leitores críticos.
Sua mãe não vale, nem seus primos. O que é
preciso é ir expondo seus textos a vários leitores
que não tenham nenhuma amizade por você e possam fazer
críticas. Um site na internet, um artigo numa revista podem
dar o tipo de resposta que você precisa. Mas não adiante
ficar pescando elogios, é preciso pescar os problemas para
saber onde melhorar!
•
Jogar fora nove décimos do que originalmente escreve.
Você mesmo tem de selecionar o que é bom e o que é
mediano entre os seus escritos, não adianta achar que tudo
merece virar livro porque ninguém escreve só maravilhas.
Até Guimarães Rosa deixou um monte de coisa na gaveta...
•
Amar a língua portuguesa.
A escrita é para aqueles que amam a língua. Não
dá para escrever um livro querendo fazer um vídeo
ou ficando com preguiça de aprender novas palavras. A língua
é a ferramenta do escritor. Como o pintor ama as tintas,
o escritor precisa ter fascínio pelas palavras.
•
Confiar em si mesmo.
Quando você escreve, acredita que tem algo a dizer. Continue
acreditando sempre nisso e busque a melhor maneira de ser autêntico.
Editores querem escritos verdadeiros, não materiais artificiais
montados para agradar. Faça com o coração que
é sempre mais verdadeiro.
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topo ^^
Jean
Bryant, professora de escrita nos Estados Unidos, levantou sete
hábitos que você NÃO deve NUNCA adotar se quiser
escrever alguma coisa. A abordagem bem-humorada aponta para as armadilhas
mais comuns de quem começa a escrever (em Anybody can write,
San Rafael, New World Library, 1985):
1
- Pense no que os outros podem achar. Pense em como você
precisa ser ótimo e original para mostrar que é bom,
e escrever sem um erro sequer. Pense nas pessoas que vão
ler seu material, especialmente em sua mãe. Tome um café
e pense mais um pouco.
2
- Faça muita pesquisa antes. Você precisa
descobrir absolutamente tudo sobre kiwi ou bordéis parisienses
antes de começar seu próximo capítulo. Faça
sua pesquisa no próprio local, viajar é bom para o
escritor. Não comece a escrever antes de terminar toda a
pesquisa.
3
- Peça conselhos a todo mundo. Mostre suas páginas
iniciais ou seu esboço a amigos e parentes, inclusive a seu
dentista. Ignore o adágio de que o camelo é um cavalo
montado a partir do consenso entre os membros de um comitê
e siga todos os conselhos recebidos sem exceção. Não
confie em si próprio.
4
- Considere seu trabalho uma extensão de sua pessoa.
Se o elogiarem, não revise nem reescreva nada, mande para
as editoras imediatamente. Se for recusado, pare de escrever. Quando
disserem que seu trabalho não está perfeito, entenda
que não gostam de você. Reclame e choramingue que estão
cometendo uma injustiça contra você.
5
- Espere até estar inspirado. Consulte seu horóscopo
para o dia e o que dizem os búzios. Arrume sua escrivaninha
e troque as cores da tela de seu computador. Caso a musa não
apareça para inspirar-lhe, vá ao cinema. Quem sabe
você não irá escrever um roteiro de sucesso
algum dia?
6
- Deixe para depois. Mais tarde sempre é melhor.
Se você não escrever sobre um assunto, alguém
vai acabar fazendo-o. Deixe para amanhã o que você
não precisa escrever hoje.
7
- Leve seu trabalho à sério. Nunca se satisfaça
com nada que não esteja perfeito. Lembre-se de como
é importante este projeto. Você pode passar ridículo
e perder seu emprego caso escreva mal. Ao mesmo tempo, não
deixe que o peso dessa responsabilidade o impeça de trabalhar.
A paralisação de seu impulso vai durar apenas uns
dois anos, até o perigo passar.
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topo ^^
Dicas
de um escritor
de sucesso |
Kurt
Vonnegut, autor de Matadouro número cinco, entre outros sucessos,
explica em um artigo intitulado "Como escrever com estilo"
(in How to use the power of the printed word, editado por Billings
S. Fuess, New York, Doubleday, 1985) que muitas das preocupações
dos autores sobre estilo acabam por atrapalhá-los e fazê-los
encher seu texto de palavras exóticas e artificiais. Eis
suas dicas:
1.
Escolha um assunto sobre o qual você se importe.
O seu interesse genuíno, e não qualquer jogo de palavras
que possa fazer, é que terá o poder de seduzir o leitor.
2.
Não se estenda.
3.
Seja simples.
Lembre-se de que tanto Shakespeare quanto a Bíblia usaram
palavras perfeitamente compreensíveis para as pessoas da
época.
4.
Tenha a coragem de cortar.
A eloqüência deve curvar-se ante as idéias. Caso
algumas lindas frases não acrescentem nada de novo ao que
você está tentando dizer, corte-as sem perdão.
5.
Soe como você mesmo.
Escreva da maneira como usa a língua, do lugar de onde você
é. Não tente se passar por uma pessoa de outro lugar
e outra cultura ou isto irá se refletir no seu poder de persuasão.
6.
Diga o que tem a dizer de modo claro.
Leitores querem páginas que se pareçam com páginas,
parágrafos e pontuação reconhecíveis.
Não escolha criar jazz ou cubismo quando seu objetivo é
se fazer entender.
7.
Tenha pena dos leitores.
Nossas opções como escritores são limitadas,
uma vez que os leitores são artistas imperfeitos na arte
de ler. Nossa audiência requer um esforço de nossa
parte de clarificar e simplificar, mesmo quando preferiríamos
pairar acima de coisas tão chãs quanto a simplicidade.
8.
Consulte livros de referência quanto a gramática e
pontuação.
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topo ^^
Como
posso
avaliar meu original? |
Se você não é um crítico literário
com muita isenção para com a sua própria obra,
é bastante difícil fazer uma auto-avaliação.
Também adianta pouco você pedir à sua mãe,
seu tio, seus irmãos para lerem o que você escreveu.
Essas pessoas todas vão querer agradar você, além
de, salvo raras exceções, não serem críticas
treinadas para levantar problemas em textos.
Você pode usar os amigos simplesmente para receber alguns
feedbacks. Por exemplo, jamais pergunte se a pessoa gostou, pois
é óbvio que dirá que sim. Faça perguntas
abertas como: O que você entendeu da obra? O que acha mais
significativo? Quem você acha que vai gostar de ler isso?
Que partes você acha lentas demais? O que você tiraria?
Dica
amiga: Mesmo que seus amigos dêem respostas
úteis e extraordinárias, não tente usar a opinião
deles para justificar a publicação de sua obra para
um editor. A opinião de seus amigos não vale absolutamente
nada para um editor, porque esse profissional raciocina que, se
os seus amigos não elogiarem você, quem o fará?
Se
você quer uma avaliação legítima, contrate
um profissional. Esse serviço se chama leitura crítica
ou parecer ou análise crítica e deve ser executado
por um editor que não conheça você e que não
tenha inibições quanto a fazer um relatório
sincero.
O que você pode fazer por conta própria, no entanto,
é, depois de ter escrito tudo o que gostaria, assumir uma
postura crítica e ler o seu trabalho como se fosse de outra
pessoa. Isto não é muito fácil mas necessário
para que apresente um original minimamente profissional a uma editora.
^^
topo ^^
O escritor-aranha
O
ato da escrita tem – na minha opinião de editora –
algumas semelhanças com o trabalho das aranhas tecedeiras,
aquelas nossas amigas de oito patas e variado número de olhos
que fazem teias.
Com certeza, elas não entendem nada de editoras, mas sua
abordagem para armar teias pode ser muito instrutiva para quem deseja
escrever. Não a toa, elas são símbolo da escrita,
inventoras do alfabeto e musas da criatividade em mitologias de
várias culturas. Veja só.
Lição
aracnídea número 1
As
aranhas fazem suas teias muito rapidamente.
Em meia hora ou quarenta minutos, mesmo aquelas teias grandes e
lindamente geométricas ficam prontas. O recado para escritores
é: trate de escrever o que você pretende rapidamente
e chegar ao término de seu projeto. Escrever livros não
é um trabalho para se estender por toda a vida, mas algo
pontual e com um fim em vista.
Lição
aracnídea número 2
As
aranhas fazem teias apoiadas em algum lugar.
Repare que mesmo as teias mais intrincadas precisam ter várias
linhas que as ancorem a pedras e árvores, de modo que não
se rompam com o impacto do inseto. O equivalente na escrita é
a ligação com a realidade. Mesmo a ficção
mais delirante, a poesia mais fantasiosa, precisa ter linhas firmes
e resistentes de conexão com o mundo real, para que o leitor
não escape da leitura por achar o perfil psicológico
do personagem impossível ou sua ação deslocada
em relação aos acontecimentos apresentados.
Lição
aracnídea número 3
As
aranhas fazem teias para capturar insetos.
Esses animais não perdem tempo fazendo teias para outra coisa
que não seja enriquecer sua dieta de proteínas. Na
escrita, isso quer dizer uma preocupação em construir
tramas para capturar a imaginação do leitor e nada
mais. Charmes estilísticos, efeitos literários, citações
profundas devem ser todas deixadas de lado se não contribuírem
para enredar o leitor na história.
Lição
aracnídea número 4
As
aranhas constróem suas teias onde há insetos.
Nossas práticas professoras se empenham em armar suas redes
onde muitas vítimas em potencial voejem, pulem ou passeiem.
O que escritores devem aprender com isso é escrever suas
histórias para públicos que existem, ou seja, grandes
grupos de pessoas que possam se interessar por aquele tema e abordagem.
Lição
aracnídea número 5
As
aranhas fazem teias invisíveis.
É evidente que o inseto não pode enxergar a teia antes
de bater de encontro a ela, ou simplesmente fará um desvio
em seu plano de vôo. Do mesmo modo, se o leitor perceber como
a trama foi construída – com excesso de lógica
ou pouco suspense, por exemplo – certamente perderá
o interesse e escapará da leitura.
Lição
aracnídea número 6
As
aranhas refazem suas teias sempre que necessário.
Se você jogar talco numa teia para enxergá-la, dali
a pouquinho sua proprietária a desmanchará e fará
uma nova teia, mais leve e menos visível. Se você romper
um dos fios da teia, a aranha também se apressará
em tecê-lo de novo. Ensina assim ao escritor que, quando sua
obra deixa de funcionar por alguma razão, a abordagem eficiente
é desmanchá-la e refazê-la, sem pena pelo que
não cumpre mais sua função.
Lição
aracnídea número 7
As
aranhas não ficam presas em suas próprias teias.
Apesar de a maioria dos fios das teias serem pegajosos, as aranhas
sabem onde colocar suas oito patas para não ficarem presas
em suas construções. O escritor-aranha aprende com
isso a não ficar fascinado com seu próprio trabalho,
mas tratá-lo como uma ferramenta útil para atingir
seu objetivo: capturar a imaginação do leitor.
Lição
aracnídea número 8
As
aranhas fazem muitas teias.
Uma vez que necessitam de bastante proteína, as aranhas precisam
caçar uma quantidade respeitável de insetos por dia.
Sendo assim, não perdem tempo em fazer nova teia assim que
terminam uma refeição. O recado dado a você,
escritor, é fazer muitos projetos, escrever bastante, incorporar
a escrita às suas rotinas diárias para conseguir atingir
o objetivo de criar bastante e ter muitos leitores.
Desejo-lhe
boa sorte e um futuro cheio de teias eficentes!
^^
topo ^^
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