Eu já expliquei bastante sobre a diferença entre prestadores de serviço e editoras comerciais, mas gostaria de acrescentar algumas observações por conta das muitas mudanças desse mercado. As armadilhas aos autores incautos aumentaram muito, assim como os custos – inacreditáveis! – de produção de livros disfarçada de edição.
Antes que você se encha de indignação, deixe-me observar que este mercado é como qualquer outro: existe porque há consumidores. Tem gente que pede para ser enganada, implora para ouvir mentiras, acha que um site como esse aqui é uma afronta a seus sonhos. Tudo certo, se você quer ouvir de alguém que está prestes a começar uma carreira literária de sucesso garantido, divirta-se. Eu não minto, mas tem montes de gente que não têm o mesmo pudor...
Antes que prestadores honestos fiquem irados, deixe-me esclarecer também que há toda uma gama de pessoas e empresas por aí. Eu não tenho nada contra a prestação de serviços transparente, aliás indico vários profissionais a quem me pergunta, só me aborreço quando o serviço vem disfarçado de outra coisa, acompanhado de promessas impossíveis de serem cumpridas.

Inverdades

A primeira mentira descarada que um monte de “editores” diz é a de que todo autor paga para lançar o primeiro livro. Isso simplesmente não é verdade, eu mesma já publiquei dezenas de autores nacionais desconhecidos pela primeira vez em diferentes casas editoriais sem que eles tivessem que pagar um centavo, e conheço centenas de outros autores publicados nas mesmas condições. Se o livro tem gancho, está bem feito, dirige-se a um público definido, pertence a um gênero praticado no mercado de livros, há chance de ser publicado por uma editora comercial, que pagará em lugar de cobrar. É certo que os autores de primeira viagem não costumam ganhar muito, veja o comentário de um autor lá no fórum e de variados aí pela internet, mas é certo também que não precisam pagar nada.
Esse terreno ficou mais confuso ainda depois que algumas editoras de verdade resolveram abrir departamentos de prestação de serviços. Elas têm autores comuns e, misturados, autores que pagam. Com a maior cara-de-pau apresentam contratos de “edição” que incluem parcelas de pagamento pelo autor. Isso é um absurdo, totalmente não transparente. Se você está comprando um serviço, ele precisa ser explicado com clareza. Se alguma “editora” fizesse um contrato especificando, por exemplo, presença em tantas bienais do livro de São Paulo e Rio, presença física do livro em x livrarias (com lista e possibilidade de aferição), propaganda em x número de folhetos da rede Saraiva, colocação por tantos dias em x gôndolas da La Selva, aí estaríamos com uma descrição de serviço de distribuição. Não resolveria, mas teríamos uma base para julgar preços e qualidade do serviço. Prestadores, no entanto, garantem apenas a impressão do livro, deixando a distribuição a cargo de promessas vagas (mas em muitos casos eloquentes).
Não se deixe seduzir pelo apelo de estar ao lado de autores famosos, isso não faz diferença alguma para a venda do seu livro. O que você quer é que a sua obra seja trabalhada, divulgada e distribuída, o que provavelmente não vai acontecer se a editora pedir para você pagar. Se uma empresa que vive da venda de livros pede a você para pagar pela impressão do seu, isso significa que ela não aposta em você, não acredita no poder da obra de ser vendida e gerar receita. Se a editora não acredita nisso, como irá se empenhar e insistir e promover seu livro?

A segunda mentira descarada de vários “editores” prestadores de serviço é de que vão distribuir o livro. Não vão! Hoje vários cadastram a obra em grandes livrarias, de modo que ela pode ser encontrada pela internet e encomendada, mas isso não significa nada. Ter a obra no site de uma livraria significa zero em vendas se não for feito um trabalho intenso de divulgação perante o público-alvo e com as livrarias, o que nenhum prestador de serviços faz porque é caro, árduo e dificílimo, com retornos de médio e longo prazos.
Muitas editoras de verdade, que dependem de venda de livros para sobreviver, não fazem uma boa divulgação devido ao tamanho da tarefa, que dirá prestadores de serviço que já receberam para imprimir a obra? Não importa em quantos sites a obra esteja cadastrada, isso não significa vendas. Não importa se o prestador diz ter contato com uma ou mais redes de livrarias, isso não significa exposição da sua obra. Ela só vai vender se você se empenhar em comercializá-la.

A terceira mentira, já mais sutil, é a promessa de “editores” prestadores de promoverem ações – em geral bem caras – para divulgar o livro do autor que pagou. Esse terreno é mais complicado, porque uma obra com gancho e público definido pode até se beneficiar de algumas ações esparsas, como uma entrevista dada pelo autor (através de assessoria de imprensa) ou uma exposição em feira de livros. Mas uma obra sem apelo óbvio não anda nem um passo mesmo com o maior dinheiro gasto. E uma obra com apelo exposta em um estande confuso, cheio de obras que variam de poesia a manuais de agricultura, por exemplo, dificilmente será encontrada e vendida se o autor não fizer uma divulgação extensa antes.

As editoras existem justamente porque vender livros diretamente ao público não é fácil, exige persistência e um relacionamento com os leitores. Seduzir o público, criar uma imagem de consistência e relevância cultural leva tempo e exige textos selecionados pela qualidade, além de consumir muito dinheiro. Nenhum prestador de serviços tem condições de fazer isso, não importa o que diga.
Publicar por conta própria é uma possibilidade válida e muito rentável em alguns casos, como comento em Como posso publicar meu livro? No entanto, é preciso que você saiba que, ao pagar para que o livro seja feito, a responsabilidade pela venda é toda sua. Você terá que se empenhar e gastar a sola dos sapatos, divulgar a obra, chamar leitores, procurar dar entrevistas, levar seu livro debaixo do braço aonde for, expor sua obra onde puder, dar palestras, criar modos de ficar conhecido entre potenciais leitores e montar banquinhas para vender mesmo. É isso o que faz um livro andar, não qualquer ação cara de um prestador de serviço.

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